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08/07/2008 - Teco Padaratz


Provações


A vida no tour é uma correria sem fim. São diversas situações e contra-tempos (leia-se roubadas) que colocam você à prova o tempo todo. Coisas do dia-a-dia mesmo, que testam desde a sua capacidade de adaptação até os níveis mais profundos da sua perseverança.
Certa vez, em 93, atravessei o mundo para participar de uma etapa do WQS que aconteceria no Chile. Detalhe, eu estava nas Ilhas Maldivas.

A minha ida foi basicamente assim: 1 hora de barco da Ilha Malé, onde eu me encontrava, até a capital das Maldivas. Maldivas até Cingapura, um vôo de 2:30 horas. Cingapura até Sidney, outro vôo de 7 horas. Sidney até Los Angeles, mais 13 horas dentro do avião. Los Angeles, Miami 5:30 horas. Miami até São Paulo mais 8 horas. Onde fiquei um dia inteiro trabalhando com meu patrocinador e encontrei minha esposa Gabi que me acompanharia no campeonato.
De São Paulo, ainda no mesmo dia, mais 4:30 horas de avião até Santiago e finalmente, mais 1:30 horas de avião de Santiago à Iquique.

Quando cheguei ao hotel às 2 da manhã, totalmente zoado de tanta conexão e fuso horário, recebo a deliciosa notícia de que o quarto que estava reservado para mim, já havia sido ocupado pelo Ícaro Cavalheiro. Recepção mais motivadora, impossível. Conversando com o gerente, que não acordaria o Ledo Ronchi, então responsável pela organização do campeonato, por nada, decido jogar minha última cartada. “Olha amigo, chama o Ledo aí, senão eu vou dormir é na tua cama mesmo!!” O Ledo desce, mais um tempo tentando visualizar uma solução para o problema, e finalmente um quarto aparece para salvar eu e a Gabi. Isso já deveria ser umas 3:30 da manhã. No outro dia eu tinha baterias para correr com 10 pés de onda gelados.
Minha cabeça era tentada o tempo todo a pensar no pior “como vou me dar bem neste campeonato, com tanta coisa contra acontecendo?” “Será que vou conseguir descansar até a bateria?” “Se ao menos o vôo de Miami não fosse tão cansativo”.

Manter o foco no seu objetivo, quando você não tem estrutura de apoio (como alguém para te pegar no aeroporto, ou agilizar o hotel por exemplo), passa a ser um tremendo exercício de concentração e auto-conhecimento. Daqueles que até o mais experiente dos monges budistas sai cansado. Nestas horas você sempre tem 2 caminhos a seguir. 1, deixar a maré de azar tomar conta da sua cabeça e do seu estado de espírito. Ou, 2, simplesmente virar a página e seguir adiante, confiante que no próximo minuto boas coisas vão acontecer.

E foi isso que eu fiz. Liguei a chave seletora da minha cabeça no 2 e parti com tudo para o campeonato. O mar estava irado, coisa de 10 pés chilenos. Fui passando de fase sempre em primeiro na bateria, até a final. Os níveis de empolgação e confiança iam crescendo a cada fase. “Tanta coisa contra, e eu continuo aqui, me dando bem”. Assim eu segui pensando, concluindo que aquilo não passava de mais um teste da carga de foco e motivação que eu precisaria para o resto da minha carreira no tour. Chegou a hora da bateria final e pensei: “valeu a pena! As coisas boas realmente aconteceram e aqui estou eu, com chances de levar o campeonato pra casa.”

Na bateria final o cenário não poderia ser melhor: eu, que havia chegado em cima do laço, completamente exausto de tanto voar, sem lugar pra ficar, estava na frente. Foi quando a última série entrou.
Fábio Gouveia, que estava na prioridade, mais para dentro do pico, remou com tudo, mas acabou ficando atrasado e deixou passar a primeira da série. Eu que estava na seqüência da prioridade, já havia passado dele e acabei não indo também. Bom para o Tadeu Pereira, que estava posicionado mais pra dentro e se jogou na onda, tirando um 9. Eu ainda fui na de trás, mas não consegui virar o resultado. Mesmo com um desfecho dramático, o segundo lugar não me incomodou (e olha que considero o segundo uma das colocações mais angustiantes para ficar). Afinal, eu já havia sobrevivido ao teste.

O campeonato entrou para a história pela qualidade das ondas e a good vibe do Chile. Como prêmio por ter me mantido positivo diante da adversidade resolvi curtir um tempo nas montanhas chilenas, junto a um grupo de amigos.
2 semanas depois, a épica jornada das Maldivas ao Chile havia ficado para trás, e eu já me encontrava em outra maratona de aeroportos parecida. Depois de 15 anos no Tour, aprendi que vida de surfista brasileiro é assim, provação atrás de provação.

Do amigo no Mar!!!
 
Por "Teco Padaratz"  
 
Teco Padaratz
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